Mantenha os seus amigos por perto, e o seu vice-presidente mais próximo

Esta é a hora do cidadão.

Em teoria, o vice-presidente é pouco mais do que uma figura simbólica na política brasileira. O companheiro de candidatura de um presidente é frequentemente utilizado como uma forma de dar prestígio aos partidos aliados e o próprio gabinete é largamente ignorado pelo público, não tendo praticamente nenhuma responsabilidade institucional a não ser a de ser uma opção de emergência “just-in-case”.

Na realidade, porém, não é esse o caso.

Dos 38 presidentes do Brasil, oito deles assumiram o cargo depois de terem sido eleitos vice-presidente e de verem o cargo de topo vago por uma série de razões, seja por morte, demissão, ou impeachment.

Desde o regresso do país à democracia em 1985, três VPs já tomaram posse como presidente: José Sarney (em 1985, após a morte de Tancredo Neves antes da sua tomada de posse), Itamar Franco (em 1992, após o impeachment de Fernando Collor), e Michel Temer (em 2016, após a destituição de Dilma Rousseff).

E hoje, o Presidente Jair Bolsonaro parece acreditar que o seu próprio vice, Hamilton Mourão, quer ser o nono VP a ser promovido ao mais alto cargo do país – uma suspeita que está a conduzir a uma profunda cunha entre os dois homens.

Na semana passada, o Sr. Bolsonaro tornou públicas as suas queixas, dizendo que não fala com o Sr. Mourão “sobre qualquer assunto”. Fontes disseram ao The Brazilian Report que o tratamento do silêncio persiste há duas semanas – e é uma prova da distância crescente entre oficiais militares de alta patente e o governo federal.

Uma longa lista de desentendimentos

Hamilton Mourão não era o plano de Jair Bolsonaro A, B, ou C para correr com o companheiro – sendo escolhido apenas depois de múltiplas tentativas de coligação se terem afundado. Na altura, a escolha foi recebida com suspeita, pois o Sr. Mourão, um general reformado do Exército de quatro estrelas, defendeu um golpe militar para resolver a crise política do Brasil em 2017.

No entanto, à medida que a administração tomou posse, o Sr. Mourão adoptou um tom mais moderado quando comparado com o presidente, sendo muitas vezes descrito como o “adulto na sala”. Ele deu ao governo uma voz pragmática, especialmente quando se trata das relações com a China, um país sobre o qual o Sr. Bolsonaro tem feito um número crescente de declarações provocatórias.

Pareceu então lógico, quando o governo nomeou o Sr. Mourão como chefe do Conselho do Amazonas, um organismo público para supervisionar os projectos de conservação no problemático bioma natural. Com o Brasil a tornar-se um pária internacional devido às crescentes taxas de desflorestação, um “par de mãos seguro” no vice-presidente pareceu ser uma jogada inteligente. Mas quando se trata da floresta tropical, o Sr. Mourão parece ser o homem estranho que está fora.

O conselho a que preside apresentou uma proposta para expropriar as terras dos agricultores considerados culpados de crimes ambientais e cortar os fundos federais aos municípios que não cumpram os regulamentos ambientais. Em resposta, o Sr. Bolsonaro chamou a ideia de “delirante” e disse que teria todo o gosto em despedir quem levantasse a proposta – a não ser que fossem “inexpugnáveis”.

Mas embora o Presidente Bolsonaro não possa demitir o Sr. Mourão, ele pode escolher outro candidato para as eleições de 2022, uma ideia com a qual já flertou em várias ocasiões.

Não actuar como presidente em torno de Bolsonaro

De acordo com duas fontes governamentais que falaram ao The Brazilian Report, o Sr. Bolsonaro está irritado com o comportamento do Sr. Mourão, acreditando que ele está a ficar demasiado grande para as suas botas. Ele pensa que o VP está a agir como se fosse o presidente, tentando retratar-se como mais razoável e preparado do que o actual chefe de estado, defendendo muitas vezes publicamente o oposto das posições do Sr. Bolsonaro sobre questões de botão quente.

Um desses casos foi quando o Sr. Mourão admitiu que o cepticismo do presidente em torno de uma vacina contra o coronavírus da China foi pouco mais do que um resultado da sua rixa com o governador de São Paulo João Doria. “O governo vai comprar a vacina. Claro que comprará”, disse o vice-presidente. Falando a um órgão de comunicação social rival horas depois, o Sr. Bolsonaro avisou que “a caneta é minha”, sugerindo que ele teria a decisão final.

Mas não é só a imprensa que parece preferir o vice presidente ao seu chefe. Vários oficiais militares de alta patente que em tempos estiveram no comboio Bolsonaro repreenderam publicamente o governo, apelando à sua “falta de preparação” para enfrentar os desafios perante o país.

Até o Comandante do Exército Edson Pujol, conhecido pela sua contenção em declarações públicas, tentou distanciar as Forças Armadas do governo – dizendo que o exército é uma instituição do Estado, não de qualquer administração em particular.

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